Nunca antes na história desse país, esse país foi tão grande.
Ninguém aqui conhece ninguém de lá.
Ademais, imperialismo é normal, sempre rola, em qualquer época, ou lugar.
Pela anexação das Guianas, já!
Rumo à Rússia!
Seremos, em um futuro próximo, o MAIOR país do mundo!!
terça-feira, 27 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
De pombas, galinhas e bundas.
Quase sempre caminho numa velocidade muito acima da média. Na verdade, vendo muito caro qualquer tentativa de ultrapassagem e, mais de uma vez, assisti meus oponentes improvisados afastarem-se lentamente em uma releitura da marcha atlética, ainda mais patética pela falta de contexto. Afinal, provas de marcha atlética chegam a provocar uma ponta de vergonha alheia e, em geral, só se consegue tolerar a estranheza do rebolado pelo fato de todos estarem, ao mesmo tempo, fazendo aquilo.
Algumas vezes, os insolentes que ousam impor sobre mim suas agilidades precisam mesmo arranhar um trote, nem que seja para abreviar o constragimento do momento (largo pela diferença minúscula de velocidade) em que emparelhamos. Hoje, passava por um senhor, em disparada, quando escutei o primeiro grito:
- Ahhhhh.
Me virei assustado para ver que ele levava a mão esquerda á testa. Acredito que a enxugava com um lenço, ou simulava este movimento. Mas o sujeito insistia em se pronunciar:
- Ai, ai, ai, mas assim eu não aguento. Como é que pode, rapaz, uma lindeza destas? Isso não é uma mulher, é uma tetéia!
De fato, mesmo com pressa, afrouxei o passo para observar o motivo da exaltação do senhorzinho. Uma bunda realmente bonita rebolava logo à nossa frente. Nada de exagero: tamanho exato; formato perfeito; empinamento consistente; marca sutil da calcinha, interessantemente pequena (pra mim, que não gosto de fios dentais, nem para passar nos dentes, nem para os assistir 'cobrindo' bundas), por baixo do jeans escuro; e um movimento enlouquecedor de quem parece saber que quase mata os velhinhos e atiça mesmo os garotões como eu.
Tive o impulso de comentar com ela que, realmente, estava deslumbrante, mas não tive tempo. Já quase alcançava a moça quando ela parou bruscamente para observar sua maquiagem no espelho que havia na coluna de um bar. De relance, vi o rosto que parecia não comprometer o conjunto, até porque a maioria dos homens não olha para cara de ninguém, e mesmo a minoria que observa outros atributos (dentre os quais, me incluo), costuma dar generosos descontos a assimetrias, protuberâncias desmedidas e qualquer outra inconsistência facial. Afinal, mesmo as mais fracas de feição causam frissom em caso confirmado de presença de outras qualidades, digamos, 'pronunciadas'.
Bem, é uma estória boba, eu sei, e, no fundo, belas bundas abundam. Ademais, o batom laranja que percebi no mesmo relance em que avaliei o rosto da protagonista da cena, me passou a impressão que ela teria, além de um conteúdo imprevisível, uma voz especialmente estridente.
Mas o que faz valer o relato - como sempre, aliás - é a fraquíssima teoria que o acompanha. Neste caso, percebi que, enquanto eu gosto de andar rápido, mulheres, em geral, andam com mais tato. Parecem conhecer - especialmente as belas, em qualquer acepção possível do termo - muito amiúde, a reação que causam nos mais diferentes 'públicos'. E eu sou mais bronco, atravesso, passo como um tanque. Ignoro, quase solenemente, se me encaram a bunda, ou outros atributos, e isso talvez não seja muito estratégico.
Por fim, para os bravos guerreiros que conseguiram chegar até aqui, após navegar neste infindo mar de baboseiras, gostaria de destacar a provavelmente imperceptível sorte que tiveram: também no caminho pro trabalho, assisti uma outra cena peculiar que, assim como a bunda e o delicioso sol de inverno que aqueceu a manhã, contribuiu sobremaneira para a minha felicidade parcial (até o momento, tudo ok!).
Faz tempo que não via disso, mas na rua dos bares especializados em todo o tipo de peixe, pela qual passo diariamente, há um matadouro. Um aviário, sei lá. Sei que é um lugar onde vendem galinhas e variantes, ainda vivos ou recém abatidos! Ali, além do inusitado de 'aceitarem jornais' como doação, paira um cheiro talvez pior do que o do ralo do meu banheiro.
Sempre passo olhando curioso para os frangos, galinhas e perus, apesar do olhar perdido que me retribuem, e penso no que pensam durante o tempo que têm antes de virar coxinha, outros quitutes, ou mesmo um despacho... Na cena de hoje, inédita, dentro da loja ainda fechada (é uma grade, se pode ver todo o interior), um pombo encarava os seus amigos de Classe (Recordar é viver: Reino, Filo, Classe, Ordem, Gênero, Espécie, sub-espécie). Todos, sem exceção, aves. Talvez pensasse, perplexo, que o fato de não ser tão saboroso lhe salva a vida e o mantém livre, ainda que não muito benquisto.
Mas se os atributos das pessoas, tal videogame, fossem escolhidos antes da partida da vida pelo próprio usuário do avatar, duvido que alguém escolhesse ser mais longevo em detrimento de ser mais desejado e, em suma, mais comido!
Algumas vezes, os insolentes que ousam impor sobre mim suas agilidades precisam mesmo arranhar um trote, nem que seja para abreviar o constragimento do momento (largo pela diferença minúscula de velocidade) em que emparelhamos. Hoje, passava por um senhor, em disparada, quando escutei o primeiro grito:
- Ahhhhh.
Me virei assustado para ver que ele levava a mão esquerda á testa. Acredito que a enxugava com um lenço, ou simulava este movimento. Mas o sujeito insistia em se pronunciar:
- Ai, ai, ai, mas assim eu não aguento. Como é que pode, rapaz, uma lindeza destas? Isso não é uma mulher, é uma tetéia!
De fato, mesmo com pressa, afrouxei o passo para observar o motivo da exaltação do senhorzinho. Uma bunda realmente bonita rebolava logo à nossa frente. Nada de exagero: tamanho exato; formato perfeito; empinamento consistente; marca sutil da calcinha, interessantemente pequena (pra mim, que não gosto de fios dentais, nem para passar nos dentes, nem para os assistir 'cobrindo' bundas), por baixo do jeans escuro; e um movimento enlouquecedor de quem parece saber que quase mata os velhinhos e atiça mesmo os garotões como eu.
Tive o impulso de comentar com ela que, realmente, estava deslumbrante, mas não tive tempo. Já quase alcançava a moça quando ela parou bruscamente para observar sua maquiagem no espelho que havia na coluna de um bar. De relance, vi o rosto que parecia não comprometer o conjunto, até porque a maioria dos homens não olha para cara de ninguém, e mesmo a minoria que observa outros atributos (dentre os quais, me incluo), costuma dar generosos descontos a assimetrias, protuberâncias desmedidas e qualquer outra inconsistência facial. Afinal, mesmo as mais fracas de feição causam frissom em caso confirmado de presença de outras qualidades, digamos, 'pronunciadas'.
Bem, é uma estória boba, eu sei, e, no fundo, belas bundas abundam. Ademais, o batom laranja que percebi no mesmo relance em que avaliei o rosto da protagonista da cena, me passou a impressão que ela teria, além de um conteúdo imprevisível, uma voz especialmente estridente.
Mas o que faz valer o relato - como sempre, aliás - é a fraquíssima teoria que o acompanha. Neste caso, percebi que, enquanto eu gosto de andar rápido, mulheres, em geral, andam com mais tato. Parecem conhecer - especialmente as belas, em qualquer acepção possível do termo - muito amiúde, a reação que causam nos mais diferentes 'públicos'. E eu sou mais bronco, atravesso, passo como um tanque. Ignoro, quase solenemente, se me encaram a bunda, ou outros atributos, e isso talvez não seja muito estratégico.
Por fim, para os bravos guerreiros que conseguiram chegar até aqui, após navegar neste infindo mar de baboseiras, gostaria de destacar a provavelmente imperceptível sorte que tiveram: também no caminho pro trabalho, assisti uma outra cena peculiar que, assim como a bunda e o delicioso sol de inverno que aqueceu a manhã, contribuiu sobremaneira para a minha felicidade parcial (até o momento, tudo ok!).
Faz tempo que não via disso, mas na rua dos bares especializados em todo o tipo de peixe, pela qual passo diariamente, há um matadouro. Um aviário, sei lá. Sei que é um lugar onde vendem galinhas e variantes, ainda vivos ou recém abatidos! Ali, além do inusitado de 'aceitarem jornais' como doação, paira um cheiro talvez pior do que o do ralo do meu banheiro.
Sempre passo olhando curioso para os frangos, galinhas e perus, apesar do olhar perdido que me retribuem, e penso no que pensam durante o tempo que têm antes de virar coxinha, outros quitutes, ou mesmo um despacho... Na cena de hoje, inédita, dentro da loja ainda fechada (é uma grade, se pode ver todo o interior), um pombo encarava os seus amigos de Classe (Recordar é viver: Reino, Filo, Classe, Ordem, Gênero, Espécie, sub-espécie). Todos, sem exceção, aves. Talvez pensasse, perplexo, que o fato de não ser tão saboroso lhe salva a vida e o mantém livre, ainda que não muito benquisto.
Mas se os atributos das pessoas, tal videogame, fossem escolhidos antes da partida da vida pelo próprio usuário do avatar, duvido que alguém escolhesse ser mais longevo em detrimento de ser mais desejado e, em suma, mais comido!
sábado, 24 de julho de 2010
Lar doce
Estava no banheiro, com a porta entreaberta como de costume. Olhei pro lado do espelho e pensei: porra, tô na minha casa! No reflexo, acima da minha testa, via a janela para pedra que há ao lado do chuveiro, um mistério insondável de minha nova residência, e especulava sobre a consistência da parede contígua, pensando em instalar ali, num futuro impreciso, um box blindex classic! Depois dos armários, juro que arrumo um dinheiro para reformar o banheiro, colocar azulejos coloridos, caso o restante da casa permaneça branco, o que é improvável, já que o branco dá tanto trabalho. E sujeira tem me incomodado ao ponto de quase levantar e sair limpando tudo. Já acordo encarando um pequeno bolo de pêlos de todas as naturezas e consistências. O auto-questionamento anatômico é constante: de onde proveria cada exemplar? Tenho comigo que, com o tempo, poderei precisar a origem de cada fio por sua cor, suas voltas, seus comprimentos... No fundo isso pode ser interessante, e me agarro à esta possibilidade.
Mas o ralo do chuveiro não é nada interessante. Ele permanece vedado, guardando lá dentro um cheiro hediondo. Não chego a temer que exploda, mas me incomodo sinceramente de ter um escoamento tão precário para meus banhos e ar tão irrespirável para o meu banheiro sem janelas outras que aquela. No fundo, o ralo é um buraco na pedra sobre a qual meu apartamento está estabelecido. Sim, o que a aparece na insólita janela para o nada de meu banheiro, nada mais é do que a ponta de um enorme iceberg de pedra ou, buscando maior precisão lingüística e trocadilheira, um rockberg!
Um dia contrato alguém munido de marreta e ponteira – e cheio de marra – para instalar ali um sifão decente, e manter distante o olor maldito que espalhamos pelo mundo, dada nossa forma particular de produzir energia. Pra piorar, acabei lendo que ralos drenam, além da água, energia. Nele se esvai parte do que produzimos com garfos, do que processamos descansando, do que arrancamos do mundo nos damasiadamente raros arroubos de felicidade.
E, como do 'Chi' a gente nunca sabe quando vai precisar, tenho preferido acumulá-lo, para qualquer eventualidade. Para enfrentar com valentia o enfadonho ciclo da roupa, os pêlos implorando para serem varridos, e a pia, que clama por uma ducha fria... E, como se já não bastasse, tudo poderia ser mais simples, mas a roupa amassa enquanto lava, venta sempre que se varre e a pia, não se sabe como, JAMAIS consegue ficar sozinha, vazia.
Ter uma casa é uma aventura indescritível. Sei que fracasso terrivelmente ao contá-lo, atento ao fato de que, quem gosta de reclamar, adora reclamar do que gosta, reclamo dela (a casa), dos amigos, e até da lindeza da minha filha. E sou, como quase todo mundo, bastante feliz assim. Como sou.
Mas o ralo do chuveiro não é nada interessante. Ele permanece vedado, guardando lá dentro um cheiro hediondo. Não chego a temer que exploda, mas me incomodo sinceramente de ter um escoamento tão precário para meus banhos e ar tão irrespirável para o meu banheiro sem janelas outras que aquela. No fundo, o ralo é um buraco na pedra sobre a qual meu apartamento está estabelecido. Sim, o que a aparece na insólita janela para o nada de meu banheiro, nada mais é do que a ponta de um enorme iceberg de pedra ou, buscando maior precisão lingüística e trocadilheira, um rockberg!
Um dia contrato alguém munido de marreta e ponteira – e cheio de marra – para instalar ali um sifão decente, e manter distante o olor maldito que espalhamos pelo mundo, dada nossa forma particular de produzir energia. Pra piorar, acabei lendo que ralos drenam, além da água, energia. Nele se esvai parte do que produzimos com garfos, do que processamos descansando, do que arrancamos do mundo nos damasiadamente raros arroubos de felicidade.
E, como do 'Chi' a gente nunca sabe quando vai precisar, tenho preferido acumulá-lo, para qualquer eventualidade. Para enfrentar com valentia o enfadonho ciclo da roupa, os pêlos implorando para serem varridos, e a pia, que clama por uma ducha fria... E, como se já não bastasse, tudo poderia ser mais simples, mas a roupa amassa enquanto lava, venta sempre que se varre e a pia, não se sabe como, JAMAIS consegue ficar sozinha, vazia.
Ter uma casa é uma aventura indescritível. Sei que fracasso terrivelmente ao contá-lo, atento ao fato de que, quem gosta de reclamar, adora reclamar do que gosta, reclamo dela (a casa), dos amigos, e até da lindeza da minha filha. E sou, como quase todo mundo, bastante feliz assim. Como sou.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Terça terçã
Graças a qualquer coisa, não se pode filmar o que acontece dentro de nossas cabeças. Seria algo realmente constrangedor observar que é exibido, tal filme, o que estamos pensando.
Passei a noite nisso, evitando e, quando possível, omitindo...
Na verdade, não. Tenho uma insólita capacidade de ser desconcertantemente sincero. Hoje, menos sonso, percebo a reação das pessoas, e que nem sempre sou feliz em minhas colocações. Mas sinto cada vez menos dificuldades em expressar exatamente o que penso. Na verdade, se formos analisar mais profundamente, tomando a noite passada como referência, de fato me deixei quedar em assuntos já esgotados, isolado num canto, ligeiramente acompanhado; fui menos incisivo do que ‘gostaria’ com algumas situações afetivas, como sempre, aliás; pareci arrogante em alguns momentos, embora, ciente de mim, tenha me desculpado ostensivamente, obcecado por conviver que estava; ri como um louco de chistes meus, e alheios; expressei-me aos gritos, ao ponto de ficar rouco; especulei sobre revoluções, ainda que ainda queira ficar rico; fui indiscreto, talvez em demasia, sobre minha atual situação; revelei segredos sobre o funcionamento dos homens para mulheres; indaguei sobre o monopólio do samba, ou da tradição da moda; comprei muitas três cervejas por cinco; carreguei a mochila e o livro que nela leio por osmose durante toda a estada; por fim, encarei a estrada recusando convites – fica!, diziam; e nem caí cochilado no meu coletivo, que veio fulminando o asfalto. Apenas poucos instantes de um relaxamento estranho (levanto os joelhos, apoiados sobre o banco da frente; ora pés pendentes, ora postura iogue de calcanhar na bunda, ou sob esta, em configurações momentaneamente confortáveis), típico de pessoa esquecida pelas médias, imprevista para o espaço disponível. Não lembro onde saltei para me socorrer num taxi. Fomos voando. O motorista mudo enquanto eu me desconectava de frases soltas e, em geral, inaudíveis. Acabei chegando em casa, quase sem perceber... Minha casa! Amo chegar na minha casa!
Mas preciso voltar do relato rico para a filosofia barata, baratinha. Uma pexincha!
Falava sobre o ato de falar. E como, além da sorte, alguns recatos nos podem encaixar numa comunicabilidade mais branda, que acaba gerando dividendos neste gigantesco jogo da vida (da Estrela? Ou Grow?) que compartilhamos. Na escrita, talvez seja mais difícil ser completamente espontâneo. O tempo é muito para refletir sobre o que pode ser dito. E os recursos para apagar são vastos. Refazer é fácil, ao menos desde que inventaram a borracha. Hoje, ainda mais frenético, há uma tecla para apagar o que teclamos com as outras. Pra ela, criaram verbo na nossa língua. Reformulações épicas foram rebaixadas a atos banais. Criou-se a super-escrita, arriscaria, com muito medo de errar depois da última reforma de ortografia.
E a gente fala o que pode, o que consegue alcançar. Entre um trago e outro do cigarro. Entre um trago e outro, traz à tona o que imagina. Vara o mundo, sujismundo, clandestino, vira a noite escrevendo poesia. Vê o verbo enquanto vaga a madrugada embriagado... Delírio de lira ao longe.
Corri até o ônibus, quando ainda lá. Gritei, gritaram. Já quase ia, o bicho. Entrei – boa noite... bom dia! – e receberam o meu cartão. Vim, daquele jeito já dito. E aqui estou, viajando...
Preciso dormir, eu e meus micos.
Passei a noite nisso, evitando e, quando possível, omitindo...
Na verdade, não. Tenho uma insólita capacidade de ser desconcertantemente sincero. Hoje, menos sonso, percebo a reação das pessoas, e que nem sempre sou feliz em minhas colocações. Mas sinto cada vez menos dificuldades em expressar exatamente o que penso. Na verdade, se formos analisar mais profundamente, tomando a noite passada como referência, de fato me deixei quedar em assuntos já esgotados, isolado num canto, ligeiramente acompanhado; fui menos incisivo do que ‘gostaria’ com algumas situações afetivas, como sempre, aliás; pareci arrogante em alguns momentos, embora, ciente de mim, tenha me desculpado ostensivamente, obcecado por conviver que estava; ri como um louco de chistes meus, e alheios; expressei-me aos gritos, ao ponto de ficar rouco; especulei sobre revoluções, ainda que ainda queira ficar rico; fui indiscreto, talvez em demasia, sobre minha atual situação; revelei segredos sobre o funcionamento dos homens para mulheres; indaguei sobre o monopólio do samba, ou da tradição da moda; comprei muitas três cervejas por cinco; carreguei a mochila e o livro que nela leio por osmose durante toda a estada; por fim, encarei a estrada recusando convites – fica!, diziam; e nem caí cochilado no meu coletivo, que veio fulminando o asfalto. Apenas poucos instantes de um relaxamento estranho (levanto os joelhos, apoiados sobre o banco da frente; ora pés pendentes, ora postura iogue de calcanhar na bunda, ou sob esta, em configurações momentaneamente confortáveis), típico de pessoa esquecida pelas médias, imprevista para o espaço disponível. Não lembro onde saltei para me socorrer num taxi. Fomos voando. O motorista mudo enquanto eu me desconectava de frases soltas e, em geral, inaudíveis. Acabei chegando em casa, quase sem perceber... Minha casa! Amo chegar na minha casa!
Mas preciso voltar do relato rico para a filosofia barata, baratinha. Uma pexincha!
Falava sobre o ato de falar. E como, além da sorte, alguns recatos nos podem encaixar numa comunicabilidade mais branda, que acaba gerando dividendos neste gigantesco jogo da vida (da Estrela? Ou Grow?) que compartilhamos. Na escrita, talvez seja mais difícil ser completamente espontâneo. O tempo é muito para refletir sobre o que pode ser dito. E os recursos para apagar são vastos. Refazer é fácil, ao menos desde que inventaram a borracha. Hoje, ainda mais frenético, há uma tecla para apagar o que teclamos com as outras. Pra ela, criaram verbo na nossa língua. Reformulações épicas foram rebaixadas a atos banais. Criou-se a super-escrita, arriscaria, com muito medo de errar depois da última reforma de ortografia.
E a gente fala o que pode, o que consegue alcançar. Entre um trago e outro do cigarro. Entre um trago e outro, traz à tona o que imagina. Vara o mundo, sujismundo, clandestino, vira a noite escrevendo poesia. Vê o verbo enquanto vaga a madrugada embriagado... Delírio de lira ao longe.
Corri até o ônibus, quando ainda lá. Gritei, gritaram. Já quase ia, o bicho. Entrei – boa noite... bom dia! – e receberam o meu cartão. Vim, daquele jeito já dito. E aqui estou, viajando...
Preciso dormir, eu e meus micos.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Cotidiano
Fumei um cigarro satisfatório. Olhei, enviesado como o basculante, a varanda do prédio ao meu oposto. Outras gentes lá. Não quis saber, não tive interesse. Voltei pra dentro, alinhei o livro sobre a caixa de som, e pus o estojo por cima. Soprei cinzas para trás do armário. O saco plástico, há pouco catado e já bastante compacto, ignorava o suor da palma da mão. Organizado o canto, ainda que a poeira fina persista tornando as coisas foscas, sorvi o alento de que tudo pode ser desenhado, como em vidro embaçado, como quadro negro sob giz.
Parei tudo para sentar e escrever. Digitar um pouco, como todos os dias inteiros. Desta vez, ao menos, algo lúdico, lírico, onírico. Um viajar sadio, afora a dor nas costas e a disposição pífia para o futebol. Desvelar solitário – era de aquário e nós, nada. Nadamos nus, como bestas feras, ademais das camisas pólo aquático.
Um extra-sensacional delírio, que verte como água pedra abaixo, tecla trás tecla, marreta de ironia de meu irmão martelo e meu pai não-sou. Rico como um podre, forte como um touro gêmeo de outro touro, mais cabeça. Rozas na janela e milho no quintal. Áureos pingentes, dentro de uma caixa. Uma bailarina amadora, onipresente. Diretora de nós, ultra-potente. Laço feito para toda a vida, ora frouxo, ora nó.
Fumei outro cigarro, já repetitivo. Amarfanhando a guimba, ingrato quando farto o meu desejo, sigo aqui sentado. O cabelo que resta, escorrendo da testa e turvando a visão. Levanto novamente para ver o mundo, esse meu viés, e aproveito para esticar as costas castigadas. Tem um sujeito na varanda ali ao lado, ainda. A encruzilhada é mesmo interessante e algumas tardes chegam a incendiar o vale, mas precisamos fazer um rodízio, compartilhar a vista, conceder espaço, aliviar o outro, conviver com mais competência, mais amor, talvez...
Talvez, mais cigarro. Ou mais futebol. Sei lá.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Alimento da alma...
Dizia o cartaz mambembe:
"Consiga UM MILHÃO, na hora, sem complicações! Basta solicitar ao Seu Joaquim!"
Devia ser o nome do sujeito da carrocinha de milho verde...
"Consiga UM MILHÃO, na hora, sem complicações! Basta solicitar ao Seu Joaquim!"
Devia ser o nome do sujeito da carrocinha de milho verde...
Prato cheio
Outro dia, minha ida para o trabalho foi um prato cheio.
Em frente à entrada do metrô, me dei conta da ironia de um cara que comprava um guarda-chuva e parecia ser mais humilde que o vendedor. Produto já vendido, enquanto o primeiro se afastava, o segundo fez questão de afirmar que o guarda-chuva duraria até a copa... de 2014! La garantia, por supuesto, era él!
Depois, lançou a pérola, já um pouco gasta:
- A copa de 2014 no Brasil não vai ter, não... O mundo vai acabar em 2012!
Acho que foi a maneira como disse que me arrancou um sorriso...
Entrei na estação do metrô e, ainda na escada, arranjei uma postulante à esposa: uma moça descia uma mala enorme com a ajuda das rodinhas e, apesar de apressado como sempre, ofereci ajuda. Na verdade, estava me dando nervoso a lentidão com que ela manobrava a mala e os sobressaltos que tinha cada vez que esta despencava de um degrau para o outro. Mas, feita a proposta, ela, com uma afetação mal disfarçada, disse "se você puder, mas está pesad... Oh!", quase explodindo de contentamento quando eu levantei a tralha. Na verdade estava bem leve, e desci quase correndo como de costume. Lá embaixo, plantei o objeto no chão e recebi a gratidão estremecida:
- Obrigado, meu anjo...
- De nada...
Pensei querida, babe, minha linda, minha flor, cariño, minha deusa... Mas ela não era nada disso e, apesar de usar tratamentos desproporcionais quando dentre amigos, evito fazê-lo com desconhecidos. No caso, até por falta tempo ou gana de fomentar falsas esperanças numa passante e sua mala gigante.
Por fim, foi a coisa da franja!
Mas é preciso voltar um pouco no tempo para entender porque achei tão hilária a cena que provavelmente passaria despercebida para praticamente todo mundo.
Há alguns dias, contava uma estória para a Lili e ela me interrompeu dizendo que eu deveria cortar minha franja. Gargalhei de orgulho. Porque, antes dos aparos regulares na franjinha dela, passa-se um tempo em que todo mundo a aconselha a fazê-lo. E ela, que sabe-se lá em que foca quando olha pro espelho, provavelmente não vê a sua própria franja grande, mas a sente. Entende a situação e, quando me deu a dica, ligou o comentário das pessoas a um desconforto difuso, como as pontas dos cabelos começando a chegar à frente dos olhos, e tudo isso aos poucos cabelos que me caíam da testa aos olhos. O raciocínio dela não foi nada trivial, e eu me diverti muitíssimo com aquilo. Ademais, estou mesmo precisando cortar o cabelo. E, se ainda não o fiz, é porque o tempo de cabelinho pro lado, e os quase 10 anos de cabelo comprido, me deram inusitada adaptação (ao menos para homens) para enxergar através dos fios.
Eu no metrô, fone no ouvido, assisti a um velhinho vir esbarrando em TODAS as pessoas entre o lugar onde estava e a porta, por onde sairia. Ele, a cada esbarrão, virava para sua vítima e pedia desculpas sinceras com um sorriso cativante. A música explodindo na cabeça, e os meus olhos tomados pela ação do velho, eu sequer me apoiava em lugar algum. O observava detidamente quando me dei conta que, da calva bastante pronunciada (ele só tinha seus brancos cabelos sobre a nuca e as têmporas, estilo 'Mestre dos Magos' de cabelo curto!), bem do topo da cabeça, brotava um fio. Branco como os outros, este parecia especialmente longo. E rijo! Afinal, apesar das trombadas do simpático e sorridente senhor, das freadas e acelerações do trem e dos eventuais jatos de ar condicionado, o tal do fio permanecia estável: caía exatamente em frente ao olho esquerdo do sujeito, como se o quisesse furar...
Pensei, lá comigo, que ele devia aparar a 'franja'...
Em frente à entrada do metrô, me dei conta da ironia de um cara que comprava um guarda-chuva e parecia ser mais humilde que o vendedor. Produto já vendido, enquanto o primeiro se afastava, o segundo fez questão de afirmar que o guarda-chuva duraria até a copa... de 2014! La garantia, por supuesto, era él!
Depois, lançou a pérola, já um pouco gasta:
- A copa de 2014 no Brasil não vai ter, não... O mundo vai acabar em 2012!
Acho que foi a maneira como disse que me arrancou um sorriso...
Entrei na estação do metrô e, ainda na escada, arranjei uma postulante à esposa: uma moça descia uma mala enorme com a ajuda das rodinhas e, apesar de apressado como sempre, ofereci ajuda. Na verdade, estava me dando nervoso a lentidão com que ela manobrava a mala e os sobressaltos que tinha cada vez que esta despencava de um degrau para o outro. Mas, feita a proposta, ela, com uma afetação mal disfarçada, disse "se você puder, mas está pesad... Oh!", quase explodindo de contentamento quando eu levantei a tralha. Na verdade estava bem leve, e desci quase correndo como de costume. Lá embaixo, plantei o objeto no chão e recebi a gratidão estremecida:
- Obrigado, meu anjo...
- De nada...
Pensei querida, babe, minha linda, minha flor, cariño, minha deusa... Mas ela não era nada disso e, apesar de usar tratamentos desproporcionais quando dentre amigos, evito fazê-lo com desconhecidos. No caso, até por falta tempo ou gana de fomentar falsas esperanças numa passante e sua mala gigante.
Por fim, foi a coisa da franja!
Mas é preciso voltar um pouco no tempo para entender porque achei tão hilária a cena que provavelmente passaria despercebida para praticamente todo mundo.
Há alguns dias, contava uma estória para a Lili e ela me interrompeu dizendo que eu deveria cortar minha franja. Gargalhei de orgulho. Porque, antes dos aparos regulares na franjinha dela, passa-se um tempo em que todo mundo a aconselha a fazê-lo. E ela, que sabe-se lá em que foca quando olha pro espelho, provavelmente não vê a sua própria franja grande, mas a sente. Entende a situação e, quando me deu a dica, ligou o comentário das pessoas a um desconforto difuso, como as pontas dos cabelos começando a chegar à frente dos olhos, e tudo isso aos poucos cabelos que me caíam da testa aos olhos. O raciocínio dela não foi nada trivial, e eu me diverti muitíssimo com aquilo. Ademais, estou mesmo precisando cortar o cabelo. E, se ainda não o fiz, é porque o tempo de cabelinho pro lado, e os quase 10 anos de cabelo comprido, me deram inusitada adaptação (ao menos para homens) para enxergar através dos fios.
Eu no metrô, fone no ouvido, assisti a um velhinho vir esbarrando em TODAS as pessoas entre o lugar onde estava e a porta, por onde sairia. Ele, a cada esbarrão, virava para sua vítima e pedia desculpas sinceras com um sorriso cativante. A música explodindo na cabeça, e os meus olhos tomados pela ação do velho, eu sequer me apoiava em lugar algum. O observava detidamente quando me dei conta que, da calva bastante pronunciada (ele só tinha seus brancos cabelos sobre a nuca e as têmporas, estilo 'Mestre dos Magos' de cabelo curto!), bem do topo da cabeça, brotava um fio. Branco como os outros, este parecia especialmente longo. E rijo! Afinal, apesar das trombadas do simpático e sorridente senhor, das freadas e acelerações do trem e dos eventuais jatos de ar condicionado, o tal do fio permanecia estável: caía exatamente em frente ao olho esquerdo do sujeito, como se o quisesse furar...
Pensei, lá comigo, que ele devia aparar a 'franja'...
Assinar:
Postagens (Atom)
